Praga ameça produção de bananas (13/02/2011)
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Texto: Keila Cândido - Revista Época
(Foto: Filipe Redondo - Época)
A banana é apreciada no mundo inteiro. Pena que um de seus fãs mais vorazes seja uma praga implacável. Trata-se de um fungo conhecido como mal-do-panamá, que se especializou em destruir raízes de bananeiras. Ele é resistente e se dissemina muito fácil e rapidamente. Desde o século XIX, persegue bananais ao redor do mundo. Aonde quer que a fruta chegue, sabe-se que o mal-do-panamá, em algum momento, chegará. Nos últimos anos, a praga voltou numa nova variedade, mais letal. Só no ano passado aniquilou 65.000 hectares de plantações na China. Mesmo não tendo sido detectada ainda no Brasil, a versão século XXI desse mal preocupa, pois não existe uma solução para eliminá-lo. Sua vítima preferencial no momento, que passou a correr risco real de extinção em diversos países, é a Cavendish, uma variedade da nossa banana-nanica.
O mundo produz cerca de 95 milhões de toneladas de banana por ano. Há 30 anos, o Brasil era o maior produtor. Hoje, é o quarto, com 7,2 milhões de toneladas. Apenas parte da produção, e só de banana-prata, é exportada para Estados Unidos e Europa. Diante da devastação das plantações em outros grandes produtores do mundo, o Brasil tem uma oportunidade. Pode ampliar seu papel de fornecedor global se conseguir manter o mal-do-panamá fora de suas fronteiras. Mas ampliar esse comércio exigiria melhorar o sistema de transporte da fruta, já que bananas são muito frágeis e amadurecem rapidamente.
José Sidnei Gonçalves, da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios, afirma que o país tem solo e clima apropriados, mas perde no momento da pós-colheita. “O Brasil não está preparado para exportar mais banana porque não tem tecnologia e sistemas de transporte e armazenagem bons o suficiente para competir no mercado internacional”, diz.
Não são problemas insolúveis. A Empresa Brasileira de Tecnologia Agropecuária (Embrapa) considera possível tornar a banana-nanica brasileira mais resistente ao transporte. “Temos condições de exportar para os locais atingidos pela doença. O único problema é convencer o consumidor de que nossa banana é mais gostosa”, diz o pesquisador Edson Amorim, coordenador do Programa Nacional de Melhoramento Genético da Embrapa. Isso só será possível, claro, se a praga for mantida longe dos bananais brasileiros.
O Brasil tem tradição em enfrentar pragas. Com diversos graus de sucesso e diferentes técnicas, os pesquisadores e produtores lidam com males diversos que ameaçam o algodão, o cacau, a laranja, o mamão, o milho e muitas outras culturas. Por que não fazer o mesmo diante do inimigo da banana? Dois obstáculos dificultam essa reação. Primeiro, combater o mal-do-panamá com aplicação de agroquímicos em cada bananeira seria uma tática absurdamente cara, com a desvantagem de possibilitar a contaminação do solo e das frutas. Segundo, é difícil chegar a exemplares de bananeiras mais resistentes, porque bananeiras não cruzam.
Esta é a quarta versão da praga que já acabou com a variedade mais popular de banana nos anos 50
A espécie que existe hoje, resultado de milhares de anos de seleção artificial feita pelo homem, não tem sementes férteis. Cada bananal é, normalmente, uma multidão de clones originados de brotos, geneticamente idênticos e, também por isso, mais sensíveis a pragas. “Ninguém conseguiu encontrar uma solução (para a praga) porque a banana é estéril, e isso dificulta fazer experimentos e melhorar geneticamente a espécie”, diz Amorim.
No momento, o mal-do-panamá avança pela Ásia e pela África, com muito a devorar pela frente. Índia, Filipinas e China produzem juntas 43,2 milhões de toneladas de bananas por ano. Pesquisadores brasileiros nem tentaram ainda desenvolver bananas resistentes porque o fungo não chegou ao Brasil e as normas sanitárias nacionais proíbem sua importação, mesmo para testes. Nos próximos meses, a Embrapa Fruticultura, em Cruz das Almas, Bahia, começará a atuar em parceria com laboratórios de pesquisa na Europa, Ásia, África e nos Estados Unidos para fazer experiências a respeito.
Essa é a quarta variedade de mal-do-panamá a correr mundo, por isso foi apelidada de Tropical 4. As variedades anteriores, mais brandas, já haviam deixado traumas. Nos anos 50, uma delas extinguiu a banana mais consumida de então, a Gros Michel. Produtores de todo o mundo tiveram de mudar centenas de milhares de hectares cultivados para a Cavendish. No Brasil, o produtor Edson Magário conseguiu controlar um surto em 2007. Foi um ataque da variedade 2 do mal-do-panamá, que varreu 50 hectares de banana-prata de uma de suas propriedades, em Verdelândia, no norte de Minas Gerais. “Pensei em desistir de plantar banana”, diz. Nem a prata nem nenhuma das mais de 500 variedades da fruta conseguem resistir à doença. Essa briga está só começando.
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